Os bastidores de organizar um show na praia

Daiki Norizawa
Daiki Norizawa Notícias
5 Min de leitura
Fredy da Silva Gonçalves Bento

Para quem está na plateia, um grande show na praia dura algumas horas. O empresário Fredy da Silva Gonçalves Bento, conhecido como Fredy Restrito, conhece o outro lado dessa conta. Fundador da Eventos Litoral, ele atua com entretenimento, shows e grandes públicos na Baixada Santista. Para quem produz, um evento começa meses antes e termina dias depois, quando o último caminhão deixa a orla. Entre um momento e outro, existe uma operação que envolve estrutura metálica, energia, segurança, licenças públicas e centenas de profissionais.

Nas cidades da costa paulista, essa operação enfrenta um desafio adicional. Os eventos no litoral paulista acontecem justamente quando as cidades recebem mais visitantes, com trânsito intenso e serviços disputados. Por isso, o erro mais comum de quem observa de fora é tratar o evento como uma noite. Na prática, trata-se de um canteiro de obras temporário, montado em um lugar que não foi projetado para recebê-lo.

Por que tantos negócios que começam em casa não chegam ao quinto ano?

Um estudo divulgado pelo Sebrae neste mês mediu a sobrevivência de microempreendedores individuais. Entre os que não receberam consultoria técnica, apenas 33,7% continuavam ativos após cinco anos. Com orientação, esse índice chegou a quase 65%. O levantamento também indica que os dois primeiros anos de operação concentram a maior parte dos fechamentos.

A diferença entre os dois grupos está não no produto, no bairro ou na sorte, mas sim na gestão. Pesquisas anteriores do próprio Sebrae já apontavam o comércio como o setor com maior mortalidade em cinco anos. A falta de capital de giro aparecia entre os motivos mais citados para o encerramento. Esses números ajudam a identificar três erros que se repetem com frequência.

Vender produto não é o mesmo que construir marca

O segundo erro é acreditar que vender bem basta. Quem revende mercadoria sem identidade compete apenas por preço e fica exposto ao primeiro concorrente que cobrar menos. Por outro lado, uma marca cria reconhecimento, permite margem melhor e transforma o cliente eventual em cliente recorrente. A marca também muda a relação com fornecedores, porque quem compra para uma identidade própria passa a negociar especificações, e não apenas preço.

Na trajetória de Fredy Restrito, esse passo aconteceu cedo. A venda de roupas deu origem à Restrito, marca que também está na origem do nome pelo qual ele é conhecido. O empresário observa que criar uma marca obriga o comerciante a tomar decisões que a revenda permite adiar. Entre elas, estão a definição de público, de padrão de qualidade e de posicionamento.

O negócio que depende só do dono tem prazo de validade

Um comércio caseiro funciona porque o dono faz tudo: compra, vende, entrega e cobra. Esse modelo tem um limite claro. Quando o dono adoece, viaja ou simplesmente se esgota, as vendas param. Enquanto isso não muda, não existe empresa: existe um emprego que a própria pessoa criou para si.

A saída passa por formar equipe, documentar processos e aceitar dividir decisões. Na avaliação de Fredy Restrito, a diversificação em diferentes setores só foi possível porque cada operação ganhou pessoas capazes de conduzi-la. O Hina Restaurante, por exemplo, nasceu em parceria com sua irmã, Milena da Silva. Já a Litoral Mobilidade, seu principal projeto atual, reúne mais de 40 colaboradores.

O tamanho do começo diz pouco sobre o destino

A narrativa comum do empreendedorismo costuma dividir negócios entre os que nasceram grandes e os que nunca deixarão de ser pequenos. Os dados, como menciona Fredy da Silva Gonçalves Bento, apontam em outra direção. A sobrevivência depende menos do ponto de partida e mais da capacidade de revisar práticas à medida que a operação muda de tamanho.

Nesse sentido, o quarto de casa não é um obstáculo a ser escondido. É a primeira etapa de um processo que exige correções constantes. Os erros descritos aqui não desaparecem com esforço extra. Eles são superados quando o empreendedor passa a tratar o próprio negócio como uma estrutura que precisa funcionar além dele. Assim, o que começa pequeno pode ganhar escala, gerar empregos e atravessar ciclos econômicos diferentes.

 

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