Devolver o peixe ao rio não garante que ele sobreviva, e Wilson Bachega Junior, entusiasta do Pantanal e de Mato Grosso, chama atenção para esse detalhe que muitos pescadores ignoram. A prática do pesque e solte ganhou força nos rios da região como forma de conciliar o esporte com a conservação dos estoques.
Contudo, o que acontece entre a fisgada e a soltura decide se o animal volta a nadar ou morre dias depois, longe dos olhos de quem o liberou. Entender o que estressa e machuca o peixe é o primeiro passo para que a soltura cumpra de fato o seu papel.
O que o peixe enfrenta fora d’água
Durante a briga com o anzol, o peixe faz um esforço intenso e acumula ácido lático na musculatura, como um atleta no limite. Quando é retirado da água, deixa de respirar, porque as brânquias só extraem oxigênio dissolvido. Cada segundo no ar aumenta o déficit de oxigênio justamente quando ele mais precisa.
Há ainda o muco que recobre a pele ou o couro. Essa camada protege contra fungos, bactérias e parasitas. Mãos secas, panos ou superfícies quentes, como o piso de um barco ao sol, removem parte dessa proteção e abrem caminho para infecções que podem matar o animal depois de solto.
O equipamento faz diferença
A primeira escolha acontece antes de lançar a isca. Anzóis sem farpa, ou com a farpa amassada com um alicate, saem com muito mais facilidade e reduzem o tempo de manuseio. Linhas e varas adequadas ao tamanho dos peixes da região evitam brigas longas demais, que esgotam o animal.
Alicates de bico longo e removedores de anzol também deveriam fazer parte de qualquer caixa de pesca. Com eles, é possível soltar o peixe muitas vezes sem tirá-lo da água. Wilson Bachega Junior observa que esse cuidado simples costuma ser o que mais aumenta as chances de sobrevivência.

Manuseio e foto sem pressa errada
Imagine um dourado recém-fisgado, levantado pela guelra para a foto enquanto o grupo procura o melhor ângulo. A cena é comum e reúne vários erros de uma vez. O ideal é molhar as mãos antes de tocar o peixe, nunca segurá-lo pelas brânquias ou pelos olhos e apoiar o corpo na horizontal, com uma mão sob a barriga, especialmente nos exemplares grandes.
A foto pode existir, mas com o celular já pronto e poucos segundos fora d’água. Peixes de couro, como pintado e cachara, exigem cuidado redobrado com os ferrões das nadadeiras, tanto pela segurança do pescador quanto para evitar quedas que ferem o animal.
A soltura propriamente dita
O peixe não deve ser arremessado de volta ao rio. Ele precisa ser colocado na água com calma, mantido na posição natural e com a cabeça voltada contra a correnteza, para que a água passe pelas brânquias. Wilson Bachega Junior salienta que, em poucos instantes, ele recupera a força e sai nadando por conta própria.
Se o anzol estiver engolido fundo, cortar a linha o mais perto possível costuma ser menos danoso do que insistir na retirada. Antes de pescar, vale também conferir as regras vigentes para cada espécie e rio, já que a legislação da pesca em Mato Grosso passa por mudanças e o defeso da piracema suspende a atividade em parte do ano.
Um pacto com o futuro do rio
O pesque e solte nasce de uma ideia generosa: permitir que o mesmo peixe ofereça emoção a muitos pescadores e continue se reproduzindo. Essa ideia só se sustenta quando a soltura é feita com técnica e respeito.
Para Wilson Bachega Junior, cada peixe devolvido em boas condições é uma contribuição concreta para que os rios do Pantanal continuem fartos, e para que as próximas gerações possam viver a mesma experiência à beira d’água.
