Na avaliação de Elmar Varjão, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, empresa integrante do Grupo André Guimarães, o calendário do BIM em obras públicas está prestes a mudar a pergunta que o setor faz sobre a tecnologia. Até aqui, a dúvida era se o modelo digital ajudava a projetar e a construir melhor. A partir de 2028, ela passa a ser outra: se esse modelo continua útil depois que a obra é inaugurada.
A mudança está prevista no Decreto nº 10.306, de 2020, que organizou a adoção da modelagem da informação da construção na administração federal em três fases. A primeira tratou dos projetos. A segunda, em vigor desde 2024, levou o modelo para o orçamento, o planejamento e o controle da execução. A terceira estende a exigência ao gerenciamento e à manutenção do empreendimento depois de construído.
O que as duas primeiras fases ensinaram ao setor
Uma viga que cruza o caminho de um duto de climatização é o exemplo clássico. Quando estrutura e instalações elétricas, hidráulicas e de ar-condicionado ocupam o mesmo modelo, essa interferência aparece na tela, e não no canteiro, onde corrigi-la exige demolição, retrabalho e prazo adicional. A compatibilização foi o ganho mais visível da fase inicial.
A segunda etapa cobrou mais maturidade. Vincular o modelo a orçamento e cronograma significa que cada alteração de projeto se reflete de imediato em quantitativos e custos. O decreto passou a exigir também a atualização do modelo como construído, o chamado as built, que registra o que de fato foi executado, incluindo os desvios naturais de qualquer obra de grande porte.
Por que a manutenção é a fase mais exigente
Uma ponte, um aeroporto regional ou uma instalação militar opera por décadas. Nesse período, manter, inspecionar, reparar e adaptar a estrutura costuma consumir parcela expressiva do gasto total com o ativo, muitas vezes superior ao próprio custo de construção.
O problema é que a maioria dos modelos não nasce pensando nisso. Como observa Elmar Varjão, um arquivo concebido para vencer a etapa de projeto raramente traz o que a equipe de manutenção vai procurar anos depois: fabricante de um equipamento, data de instalação, periodicidade de inspeção, histórico de intervenções. Sem esses atributos, o modelo vira uma maquete sofisticada, e o gestor do ativo volta às pranchas e às planilhas dispersas.
O que precisa mudar na contratação e na execução
A Lei nº 14.133, de 2021, já orienta que as licitações de obras e serviços de engenharia adotem preferencialmente o BIM sempre que ele for adequado ao objeto. A preferência, porém, só produz resultado quando o edital define o que o modelo precisa conter na entrega, com que nível de detalhe e em qual formato aberto, para que a informação não fique presa a um software específico.
Do lado de quem executa, a consequência é organizacional antes de ser tecnológica. É nesse ponto que Elmar Varjão aponta o gargalo mais comum: a informação que alimenta o modelo nasce no canteiro, nas mãos de quem recebe material, testa um sistema ou registra uma alteração aprovada em campo. Se esse dado não for capturado no momento em que acontece, reconstruí-lo meses depois é caro e pouco confiável.
Um ativo que começa a ser entregue no primeiro dia de obra
A fase de 2028 desloca o ponto de chegada do BIM. A obra deixa de terminar na inauguração e passa a ser entregue também como informação estruturada, capaz de orientar quem vai operar aquele ativo por décadas. Isso altera o que significa concluir um contrato.
Elmar Varjão, em síntese, considera que essa é a mudança de fundo antecipada pelo calendário federal: a qualidade de uma obra de infraestrutura será medida também pelo que ela permite saber sobre si mesma depois de pronta. Empresas que tratarem o modelo como parte do produto, e não como exigência burocrática, chegarão a essa etapa com vantagem, porque a disciplina de registro exigida pela manutenção é a mesma que melhora o controle de prazo e custo durante a execução.
