Com quatro pontos e a liderança do Grupo C, o Brasil enfrenta a Escócia nesta quarta-feira numa partida que define mais do que a classificação: define o ritmo e a confiança para o mata-mata
Existe uma tensão particular que só a Copa do Mundo produz. Não é o nervosismo de um jogo decisivo de campeonato nacional, nem a adrenalina de um clássico regional. É algo maior, que carrega expectativa de 215 milhões de brasileiros e a memória de 24 anos sem título. É nesse ambiente que a Seleção Brasileira chega ao terceiro e último jogo da fase de grupos da Copa do Mundo 2026, contra a Escócia, nesta quarta-feira (24) no Hard Rock Stadium, em Miami, com bola rolando a partir das 19h no horário de Brasília. A campanha até aqui tem luzes e sombras. O empate por 1 a 1 com Marrocos na estreia revelou uma defesa ainda ajustável e um time que precisa de mais volume de jogo para dominar adversários organizados. A goleada sobre o Haiti por 3 a 0, com dois gols de Matheus Cunha e um de Vinicius Jr., deu alívio e confiança, mas os adversários têm calibres muito diferentes.
A Escócia, que volta a disputar uma Copa depois de 28 anos de ausência, chega com três pontos e a necessidade de pelo menos um empate para seguir no torneio como um dos melhores terceiros colocados. O cenário cria um jogo interessante do ponto de vista tático: enquanto o Brasil pode gerir o resultado, os escoceses precisam atacar. Isso tende a abrir espaços para as transições rápidas que Vini Jr. explora com precisão. Por outro lado, uma Escócia pressionada pode ser perigosa, especialmente nos primeiros minutos, quando a intensidade física costuma superar as diferenças técnicas. O retrospecto entre as seleções fala por si: em dez confrontos, o Brasil somou oito vitórias e dois empates, nunca perdeu para os escoceses. Mas estatística não joga futebol, e o jogo desta quarta vai confirmar ou desafiar esse histórico.
O que Carlo Ancelotti precisa acertar para o Brasil avançar bem
A figura de Carlo Ancelotti no comando da Seleção ainda desperta debates entre torcedores e analistas. O treinador italiano, multicampeão da Champions League e vitorioso em cinco dos maiores campeonatos da Europa, tem demonstrado pragmatismo nas escolhas táticas. A escalação com Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Rayan, Vini Jr. e Matheus Cunha tem funcionado como base, com ajustes pontuais de acordo com o adversário. A grande incógnita desta semana é o estado de Raphinha, que deixou o jogo contra o Haiti com lesão no primeiro tempo. O camisa 11 do Barcelona é titular indiscutível quando está disponível e altera sensivelmente a criatividade e a variação de jogo da Seleção.
Mas o que Ancelotti deixou claro ao longo da fase de grupos é que não existe proteção de titularidade garantida. O desempenho define a escalação, e isso criou um ambiente de competição interna que pode ser benéfico para o grupo à medida que o torneio avança. Matheus Cunha, que não era unanimidade na convocação, tornou-se o artilheiro da Seleção no torneio até aqui. Endrick, com 19 anos, espera sua chance como opção no banco e representa a promessa de uma geração que pode comandar a Seleção por anos. Para o jogo contra a Escócia, a tendência é de uma equipe que vai tentar controlar o ritmo, equilibrar a posse e aproveitar os espaços que o adversário deixar nas transições. Uma vitória coloca o Brasil em primeiro do grupo e no melhor caminho do chaveamento para os 16 avos de final, no dia 29 de junho.
O Brasil e a Copa: o que está em jogo além do resultado desta quarta
Quando o Brasil joga uma Copa, o que está em disputa vai muito além dos 90 minutos de futebol. Fala-se do hexacampeonato, sim, mas também da identidade de um país que construiu parte de sua autoimagem ao redor do futebol. Desde 2002, quando Ronaldo e companhia conquistaram o penta no Japão e na Coreia do Sul, o Brasil não voltou a erguer a taça. São 24 anos de frustrações em eliminatórias que marcaram gerações de torcedores. Em 2014, a semifinal contra a Alemanha virou símbolo de colapso coletivo. Em 2022, a derrota nos pênaltis para a Croácia nas quartas de final foi sentida com um tipo de dor específica: a de uma equipe que tinha qualidade mas não conseguiu transformá-la em resultado quando mais precisava.
A Copa de 2026 tem ingredientes diferentes. O técnico estrangeiro, algo que o futebol brasileiro resistiu por muito tempo a aceitar, trouxe uma perspectiva nova na gestão do elenco. A presença de jogadores com experiência em grandes clubes europeus, como Vini Jr. no Real Madrid, Lucas Paquetá no West Ham e Marquinhos no PSG, garante um repertório técnico consistente. O formato com 48 seleções também amplia as margens para correções ao longo do caminho. Mas o futebol, como sempre, vai cobrar a conta na hora certa. O Brasil desta Copa ainda precisa provar que sabe jogar mal e ganhar, que sabe resistir à pressão quando o adversário empurra, que sabe ser disciplinado quando o talento individual não basta. Esses atributos é que separam as equipes que chegam às semifinais das que ficam pelo caminho. O jogo contra a Escócia é uma oportunidade para dar mais um passo nessa direção.
Fontes: CNN Brasil | Olympics.com | Trivela
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
